Empregadores têm preconceito e pouca abertura a refugiados

Mesmo os com ensino superior, em geral, só conseguem empregos operacionais. No Brasil, o maior número de pessoas nessa situação veio da Síria, onde uma guerra civil dura seis anos. Todas as nacionalidades enfrentam, além das dificuldades para encontrar trabalho, os desafios da burocracia e do processo para validar o diploma


Eles deixaram seus países de origem — por motivos como perseguição e generalizada violação de direitos humanos — e precisam refazer a vida. No Brasil, o maior número de pessoas em refúgio vêm da Síria, onde uma guerra civil dura seis anos. Todas as nacionalidades enfrentam dificuldades para encontrar trabalho, especialmente na área de formação: além da burocracia e dos desafios para validar o diploma, falta abertura dos empregadores.

O mundo vê hoje a maior onda migratória desde a Segunda Guerra Mundial. Conhecida como Primavera Árabe, a profusão de protestos ocorridos no Oriente Médio e no norte da África em 2011 foi uma das principais razões para as migrações em massa. Na Síria, a desoladora guerra dura seis anos, o que fez com que milhões de habitantes do país buscassem refúgio, segundo levantamento de 2016 do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Essas pessoas fogem de perseguições raciais, religiosas e políticas e procuram recomeçar a vida. Muitas chegam à nova pátria qualificadas para o mercado de trabalho, mas não conseguem emprego na própria área, por motivos como a dificuldade com um novo idioma e o preconceito de empregadores. Recorrem a ocupações pouco especializadas, sujeitando-se a salários muito aquém aos das qualificações a que fazem jus.

Engenheiro de redes e telecomunicações, Mjed Mofleh é ajudante de cozinha num restaurante árabe

O relatório do Acnur revela que a maior taxa (35%) de deferimentos recentes de solicitação de refúgio são concedidos a imigrantes da Síria, graças a uma resolução do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) de 2013 que flexibilizou a entrada de expatriados daquele país no Brasil. Antes era exigida comprovação de emprego fixo e de condições financeiras para permanecer aqui — como ainda funciona para outras nações. No meio do conflito que envolve o governo autoritário de Bashar al-Assad, os revolucionários sírios e o Estado Islâmico, a população luta apenas pela sobrevivência. Resta retirar-se. O que fizeram cerca de 5 milhões de sírios. Com 2.298 reconhecidos no país, o Brasil é um dos lugares mais visados. A hospitalidade daqui agrada, mas conseguir emprego ainda é um desafio. “Os refugiados chegam com uma bagagem muito rica. Têm condições para contribuir com a economia brasileira. Muitos empregadores desconhecem as qualificações deles, acham que são ilegais no país”, pondera Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur.

Ele acredita que é necessário se reinventar para conseguir emprego. “Não adianta chegar com um diploma.

No Brasil, Ahmar Nabout empreendeu e emprega outros sírios em seu restaurante

Muitas categorias exigem a validação da graduação ou fazer uma prova específica da categoria, como é o caso da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), por exemplo. Então eles precisam pensar em outras maneiras de gerar renda, de se inserir no mercado de trabalho.” Mjed Mofleh, 27 anos, que escapou para cá há quatro anos, se reinventou. O sírio é graduado em engenharia de redes e telecomunicação pela Changchun Universitiy (China) graças a bolsa integral de estudos, e fluente em quatro idiomas (árabe, inglês, mandarim e português). Apesar das notáveis qualificações, trabalha ajudando na cozinha do restaurante Damascus (413 Sul). Formou-se em 2013 e não pôde voltar à Síria. Lá seria convocado pelo exército imediatamente ou preso por “não ajudar o país”. Atualmente, chega a fazer 10 horas de expediente por dia e não sobra tempo para se aprofundar no português ou validar o diploma.

“Para fazer isso, tem que ter tempo e dinheiro; e eu preciso trabalhar para conseguir comer e pagar meu aluguel”, comenta Mofleh, que mora numa quitinete na Asa Norte com a namorada. “Gosto de estudar e de procurar algo melhor para minha vida”, conta. Ao chegar ao Brasil, sem ter a quem recorrer, pediu emprego ao dono do restaurante que frequentava. “O Mofleh, que é engenheiro, e outro amigo meu, advogado, vieram falar comigo para trabalhar na cozinha”, lembra Ammar Nabout, 42, proprietário do Damascus. O empreendedor veio para o país em 2014 com a esposa e três filhos e montou o restaurante com muito esforço. Na Síria, também era empresário. Tinha uma loja de roupas e, com o dinheiro rendido — e guardado —, pôde começar o novo negócio em Brasília. Na hora de procurar um espaço, a preocupação era encontrar um em que não houvesse requisito de fiador, pois desconhecia quem pudesse afiançar a locação da loja. “Tivemos que pesquisar muito para achar um lugar. Para morar também, a mesma coisa”, diz.

Falta abertura

Mamadou Balde, da República da Guiné, trabalha como ambulante, por não encontrar emprego fixo

“Quem recolhe mais os refugiados para trabalhar são os próprios árabes”, percebe Ana Kouzack, 49, imigrante síria, há 25 anos no Brasil, chef de cozinha na preparação de salgados da confeitaria Arab Sweets (408 sul). Economista pela Universidade Tartous, em Damasco, na cozinha do estabelecimento, ela é colega do engenheiro civil Hayan Aldarwish, 26. Ele fugiu da guerra da Síria há um ano, deixando os pais, o irmão e a irmã para trás — o dinheiro permitia que apenas um se refugiasse. Aqui, encontrou trabalho logo que chegou. Não sobrou tempo para conseguir validar o diploma estrangeiro. “Tenho que trabalhar muito para arrumar dinheiro e ajudar minha família lá. Deixar o emprego para estudar é complicado para mim”, lamenta, esforçando-se para pronunciar o português recém-assimilado.

Com o dinheiro que ganha aqui, Hayan Aldarwish ajuda a família na Síria

“O reconhecimento de diplomas é lento e caro. Com isso, tanto os refugiados quanto o país desperdiçam esse conhecimento, essa contribuição valiosa que os refugiados poderiam oferecer ao mercado de trabalho. E eles se sentem angustiados, quando não com certa frustração, diante da limitação que encontram no Brasil”, avalia Irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH). Para a advogada e religiosa da Congregação Scalabriniana (braço da Igreja Católica voltado a imigrantes), falta sensibilidade da sociedade civil e empresarial. “Por isso, nosso apelo é para que a sociedade, especialmente o empresariado, considere a oferta de vagas de emprego, dando oportunidade de avançar no aprendizado do idioma e na experiência profissional em nosso país”, completa.

Ana Kouzack, salgadeira numa confeitaria, percebe que os árabes são os mais propensos a empregar sírios

“Se eu arrumar emprego fixo, conseguirei voltar a estudar e validar meu diploma, mas trabalhando como ambulante, andando para lá e para cá, como vou conseguir estudar? Preciso pagar aluguel e comer. É muito difícil”, queixa-se Mamadou Bailo Balde, 32, morador de Taguatinga. Ele se refugiou no Brasil há quase dois anos para escapar “da truculência do governo da República da Guiné”, país de origem. Lá, trabalhava com promoções de venda e contabilidade, graças à graduação em recursos humanos e contabilidade pelo Institut Professionnel Moderne. Aqui, aprendeu português em aulas oferecidas pela Universidade de Brasília e começou a trabalhar como ajudante em uma empresa lavando ferragem. Mamadou conta que precisava manipular uma substância química prejudicial à saúde por um salário ínfimo e decidiu sair sete meses após. Desde então, trabalha como ambulante vendendo óculos próximo à Rodoviária do Plano Piloto, mas não deixa de tentar arrumar emprego fixo. “Já enviei currículo para muita empresa, fiz entrevistas e até agora ninguém me chamou. Gostaria muito de poder trabalhar ensinando francês, mas tento todo tipo de vaga.”

O português como barreira

“Quanto mais qualificado o imigrante, mais dificuldade em conseguir um emprego ele tem”, analisa Lúcia Barbosa, 56, professora de português para estrangeiros há 22 anos. Nascida em Cuiabá, é graduada em letras-inglês pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mestre em literatura cabo-verdiana pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), doutora em português para estrangeiros no Brasil pela Universidade Paris 8. As aulas que ministra são oferecidas gratuitamente a estrangeiros desde 2013 pelo Núcleo de Ensino e Pesquisa em Português para Estrangeiros da Universidade de Brasília (Neppe/UnB), em parceria com o IMDH e o Acnur. A professora chama a atenção para o peso que a palavra “refugiado” carrega. “Chegam como refugiados, mas uma vez aqui, inseridos na sociedade, não são mais, tornam-se imigrantes que vão procurar emprego. Não se pergunta muito ‘você é refugiado?’. As pessoas têm uma representação muito negativa do adjetivo, acham que é um fugitivo, mas é alguém que está saindo do próprio país porque está sendo perseguido de alguma forma ou por razões de guerra”, explica.

 

Na visão da linguista, a burocracia não é grande barreira para esse público, mas o idioma, sim. “A língua tem um papel importantíssimo porque é com ela que se tem possibilidade de participar de uma entrevista, escrever carta ou e-mail, atender e compreender um telefonema. Ou seja, atividades cotidianas exigem o idioma como base”, pondera. Segundo Lúcia Barbosa, muitos imigrantes querem fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), por saberem que ele dá acesso a universidades, mas vários não conseguem porque o site de inscrição e as provas são em português. Fluente também em inglês e francês, a professora não vê dificuldade em lecionar para falantes de outras línguas que não domina. De acordo com ela, os sírios, que chegam com três ou quatro idiomas, têm mais facilidade de assimilação; mas o fator determinante é o grau de exposição à fala que a pessoa tem na rotina. “Quanto mais próxima no cotidiano estiver a comunicação oral, mais rápido ela aprende — e isso tem a ver com o acolhimento no país.”

Mudança por razões humanitárias

O médico haitiano Peguy Fils Aime dá aulas de espanhol informalmente, mas gostaria de na área da saúde

Em 2010, um catastrófico terremoto abalou o Haiti. O sismo de alta magnitude agravou ainda mais o quadro de problemas sociais e gerou uma grande evasão em direção a países das Américas Central e do Sul. Aos 43.871 haitianos — registrados — que desembarcaram no Brasil, foram concedidas permanências pelo governo federal em 2015. Denominado visto humanitário, difere-se do refúgio ao também contemplar pessoas afetadas por crises econômicas e ambientais, como é o caso das vítimas do terremo.

Permanente aqui, o haitiano Peguy Fils Aime, 38, é médico e atuou na profissão por três anos no governo da República Dominicana, país onde se formou pela Universidade Tecnológica de Santiago (Utesa). Veio para o Brasil há quatro anos em busca de melhores oportunidades, entretanto, sem atestar a graduação, não consegue emprego na área de formação. Aime se cadastrou no Programa Mais Médicos, que não exige validação do diploma dos intercambistas, mas ainda não foi chamado. “O que preciso na vida é trabalhar na minha área”, desabafa. Enquanto aguarda a data da prova para validar o diploma, o profissional da saúde recorre ao trabalho informal, ensinando espanhol por menos de um salário-mínimo ao mês.

Além do idioma que leciona, é fluente em crioulo (língua nativa dos haitianos), francês, inglês e, mais recentemente, o português. Este é aprimorado nas aulas que faz há quatro meses no Neppe com a professora Lúcia Barbosa. Morador de Ceilândia Sul, Aime se sentiu muito bem acolhido pelas pessoas, mas não pelo mercado de trabalho. “Quero encontrar estabilidade para poder ajudar as pessoas no Haiti. O Brasil é muito bom, gosto de viver aqui, é tranquilo e, para mim, é a primeira opção para se viver. Mas, se o país dá espaço para o estrangeiro, por que não dá espaço também para ele conseguir emprego?”, questiona.

Acesso ao ensino superior

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi a pioneira em acolher alunos refugiados. A segunda foi a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na instituição paranaense, a primeira aluna desse modelo a se formar foi Lucia Loxca. Recém-graduada em arquitetura e urbanismo, a síria de 26 anos recebeu o diploma em 19 de agosto, motivo de celebração da comunidade universitária. Na UnB, o projeto Raízes visa proporcionar melhor acolhimento a alunos oriundos de comunidades indígenas e estrangeiros refugiados. A decana de Ensino de Graduação, Cláudia Garcia, em nota, reafirma a necessidade de democratizar o acesso. “Nós, como instituição, temos a obrigação de garantir que esses estudantes não apenas ingressem, mas que também sejam bem-sucedidos em sua trajetória acadêmica.”

ONU e parceiros oferecem coaching para refugiadas

A Rede Brasil do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e parceiros promoveram o encerramento da segunda edição do projeto Empoderando Refugiadas. O evento ocorreu no último domingo (29) no Espaço Itaú de Cinema (Rua Augusta, São Paulo). O projeto, que oferece coaching para mulheres expatriadas gratuitamente, tem por objetivo propiciar a elas conhecimento e informações sobre o mercado de trabalho, além de sensibilizar empresas para a contratação. “Orientamos sobre direitos trabalhistas, como se portar em entrevistas e desenhar o currículo”, explica Vanessa Tarantini, assessora de Direitos Humanos e Anticorrupção da Rede Brasil do Pacto Global da ONU e uma das idealizadoras da iniciativa.

“Como as vagas oferecidas a refugiados são mais braçais, muitas vezes as mulheres nem eram indicadas para as entrevistas.” As beneficiadas são selecionadas por meio de base de dados do Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (Parr). “A gente busca diversidade de qualificações e requisitamos, ao selecionar, que estejam motivadas e que entendam português.” Ao longo das duas edições, participaram 80 mulheres, das quais 21 obtiveram contratação direta. Assista a um minidocumentário sobre o projeto pelo link youtu.be/_5-O3hMBt5I.

Saiba mais

Guerra na Síria
Em dezembro de 2010, o mundo árabe foi abalado por revoltas e protestos que exigiam o fim de ditaduras e ocorreram, principalmente, nos seguintes países: Egito, Tunísia, Líbia, Iêmen, Barein e Síria. No último, diferentemente dos demais, em que os ditadores foram depostos, o conflito se estendeu para uma guerra armada que, em março deste ano, completou seis anos. O objetivo de grupos rebeldes é destituir Bashar al-Assad, presidente desde 2000. A guerra se intensificou em 2013 com a interferência do grupo jihadista Estado Islâmico, que ataca tanto o governo quanto os insurgentes sírios. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), o conflito soma cerca de 320 mil mortos. Dos 5 milhões que conseguiram refúgio, 2.298 estão no Brasil.

Esfihaço
Milhões de muçulmanos pediram refúgio ao longo dos últimos anos na tentativa de escapar de situações adversas no país de origem. Quando conseguem abrigo em outra nação, são, diversas vezes, hostilizados. Chegam a ser chamados de terroristas, homens-bomba, assassinos e por aí vai. Mas há também aqueles que se voltam contra a intolerância religiosa oferecendo suporte às vítimas desse tipo de preconceito.

Recentemente, o sírio Mohamed Ali, 33 anos, foi insultado enquanto trabalhava como ambulante em Copacabana, no Rio de Janeiro. Refugiado, vendia esfirras quando foi agredido por outros ambulantes por ser muçulmano. O caso foi gravado e, nas redes sociais, gerou comoção. Internautas organizaram um evento no Facebook com 11 mil confirmados como forma de apoio. O “Esfihaço”, como foi chamado, foi um sucesso e levou Mohamed a vender 3 mil esfirras. Criaram também uma vaquinha na internet para ajudá-lo a montar um foodtruck — a meta é arrecadar R$ 20 mil. É possível ajudar pelo site.

Fonte: Correio Braziliense

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