Ciclo de Debates marca aula inaugural de disciplina da UnB inspirada no Projeto Clima e Deslocamentos Humanos (Nansen 2024)

 

 

Aconteceu na sexta-feira, 24 de abril, no auditório do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília, o Ciclo de Debates “Mudanças Climáticas e Deslocamentos Humanos”, marco inaugural da disciplina Mudanças Climáticas e Mobilidade Humana, inspirada na trajetória do Projeto Nansen “Clima e Deslocamentos Humanos”. Entre os presentes, esteve a Irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), além de representantes da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Universidade de Brasília (UnB).

Durante a mesa de abertura, a Irmã Rosita Milesi refletiu sobre os objetivos da disciplina e destacou a importância da educação diante das mudanças climáticas e dos desafios que elas impõem cada vez mais à humanidade:

“A disciplina ‘Mudanças Climáticas e Mobilidade Humana’ quer trazer para dentro da universidade não apenas um tema, mas uma nova forma de olhar e de agir. Propõe que os estudantes cultivem suas capacidades analíticas, aprendam a escutar para depois interpretar. Que desenvolvam pesquisas com as comunidades, e não apenas sobre elas. Que sejam capazes de transformar conhecimento em ações concretas de justiça. A abertura desta disciplina é uma demonstração de que a universidade quer dialogar com o mundo real, com suas urgências e desafios. Cada estudante formado com essa perspectiva é uma fonte de esperança, uma semente viva. E nós precisamos, com urgência, que muitas sementes sejam plantadas.”

A Professora Carolina Claro, docente do Instituto de Relações Internacionais da UnB, colaborou com a reflexão ao destacar que não é possível se fazer políticas públicas sem ter contato com o público alvo desses planos — e a disciplina é, portanto, de extrema importância para o conhecimento e a experiência dos estudantes em relação ao tema.

Ao final da mesa de abertura, Silvia Sander, representante do ACNUR, celebrou a inauguração da disciplina e a inspiração e o conhecimento que serão criados neste espaço. Reforçou, ainda, a importância do compartilhamento desses saberes com outros espaços da universidade e da comunidade externa.

Na segunda mesa, sob a temática de “Deslocamentos e mobilidades sul-sul:desafios para a pesquisa.”, o Professor Marcio de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), realizou uma palestra introdutória, discorrendo sobre a migração de haitianos e de venezuelanos, bem como sobre os conteúdos que serão tratados ao longo do semestre na disciplina e refletiu sobre a definição e categorização do conceito de “refugiado climático”:

“O clima persegue? O clima expulsa? A dificuldade era sempre, e ainda em parte é, de reconhecer quais são os fatores que estão por trás das mudanças climáticas e que levam, efetivamente, as pessoas a se deslocarem”. Oliveira prossegue:

“Eu sempre brinco com os meus alunos que não há Ciência sem localização no tempo, em que momento o fenômeno ocorre, sem o espaço onde isso ocorre e sem o ‘quem’. E, cada vez mais, vai ficando claro que esses atores estão aí, identificados, e a atuação desses grupos é responsável pelas mudanças climáticas. E nós, enquanto cidadãos, é que estamos sofrendo e nos deslocando a partir disso”

Em conclusão ao evento, Beatriz Bento, membro da equipe de coordenação do Projeto Clima e Deslocamentos Humanos e mestranda em Sociologia, conduziu uma conversa com o professor Marcio de Oliveira acerca de justiça climática e considerações sobre migrantes do Haiti e da Venezuela.

 

 

Além dos estudantes matriculados na disciplina, também esteve presente no evento a equipe do IMDH, que realiza e acompanha de perto a acolhida de migrantes e refugiados que chegam ao Brasil. Rafael Mendes, estagiário do setor de integração econômica e comunitária do Instituto, colocou suas impressões sobre a ocasião:

“Na aula inaugural da nova disciplina Mudanças Climáticas e Mobilidade Humana, tive a oportunidade de enxergar, ainda que brevemente, mais um passo concreto rumo a um futuro mais inclusivo. A iniciativa do Projeto Nansen 2024, em parceria com o IMDH, o ACNUR e a Universidade de Brasília, evidencia a importância de integrar conhecimento acadêmico e atuação prática em temas tão urgentes. Agradeço ao meu estágio no IMDH e, em especial, à Irmã Rosita pela oportunidade de participar desse momento significativo, que reforça o compromisso coletivo com a dignidade e a proteção das pessoas em situação de deslocamento”.

Por sua vez, Ana Carolina Ribeiro, assim se expressou: “A criação dessa matéria é muito significativa, pois se trata de um dos temas mais urgentes da nossa era, mas que ainda busca espaço e amparo na legislação e na sociedade brasileira. Trazer isso para a academia é fortalecer a base para mudanças reais”.

Igualmente, Matheus Dourado, colaborador no IMDH manifesta-se “muito feliz que o Projeto Nansen 2024 do IMDH tenha contribuído para a criação de uma disciplina na UnB, fortalecendo a atuação de agentes humanitários e defensores dos direitos de migrantes e refugiados, com o respaldo acadêmico”.

Andrea Di Marcoberardino, voluntário italiano colaborador no IMDH, participante no evento, assim se expressa:

“Hoje na aula inaugural da disciplina Mudanças Climáticas e Mobilidades Humanas, com foco em deslocamento e mobilidade sul-sul, foi um momento especialmente enriquecedor. O encontro proporcionou uma compreensão mais aprofundada de dados e dinâmicas relacionadas às migrações de venezuelanos e haitianos no sul do Brasil, aproximando a discussão teórica de realidades concretas e atuais no estado do Paraná.No evento foi evidenciada a importância de fortalecer os estudos que conectam mobilidades humanas e mudanças climáticas, destacando como esses fenômenos estão cada vez mais interligados e exigem abordagens analíticas sensíveis à complexidade social. Nesse sentido, ficou clara a relevância de adotar um olhar interseccional, capaz de considerar fatores como gênero, raça, classe e nacionalidade na análise desses processos. Além disso, foi um momento importante para reconhecer o compromisso ativo da sociedade civil brasileira e de organizações internacionais na resposta a esses desafios, mostrando como diferentes atores estão mobilizados para enfrentar os impactos das mudanças climáticas nas dinâmicas migratórias”.

Presente, também, o voluntário italiano Giacomo Ulivi, faz sua enriquecedora reflexão:

“O Auditório do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília foi o cenário de um encontro fundamental para o pensamento humanitário contemporâneo: a aula inaugural da disciplina ‘Crise Climática e Deslocamentos Humanos’. Esta iniciativa, vinculada ao Projeto Nansen 2024, ganha um simbolismo especial ao celebrar a trajetória de Irmã Rosita Milesi, fundadora e diretora do IMDH, que foi reconhecida como a vencedora do Prêmio Nansen em 2024, por sua dedicação incansável à causa dos refugiados’.

Para ele, o evento, realizado pelo IMDH em estreita parceria com o ACNUR e a UnB, reuniu representantes das instituições parceiras, membros do corpo docente e um grupo expressivo de estudantes interessados na complexidade do tema. Durante as falas, a densa rede de colaboração que sustenta a disciplina foi apresentada como um modelo de cooperação necessário para enfrentar os desafios globais atuais, onde a instabilidade do clima se torna um dos principais motores da mobilidade humana forçada.

Sobre a abordagem, que ele considera combinar complementarmente teoria e prática, Ulivi destacou:

“Um dos pontos centrais da discussão foi o papel estratégico da pesquisa e da academia no campo migratório e da sua conexão com a crise climática. Longe de se restringir a um exercício puramente teórico, a produção de conhecimento na universidade foi defendida como uma ferramenta essencial para a transformação social. Revelou-se um momento de profunda inspiração e debate intelectual de alto nível, evidenciando que a união entre o rigor acadêmico e a prática humanitária é o caminho para respostas eficazes às crises do nosso tempo. Que esta iniciativa tenha uma vida longa e próspera, consolidando-se como um espaço permanente de reflexão e inovação, e que continue a capacitar mentes dispostas a transformar o conhecimento em esperança e proteção para aqueles que mais precisam”.

O Ciclo de Debates que marcou o início das aulas na disciplina “Mudanças Climáticas e Mobilidade Humana” foi, portanto, uma união de diversos âmbitos da discussão sobre a crise climática, principalmente enquanto motor de deslocamentos forçados. A crise é urgente, mas o cenário para o futuro surge um pouco mais esperançoso diante de iniciativas e parcerias como essa.

Encerrando o evento, o professor Leonardo Cavalcante, titular da nova Disciplina, expressou seu agradecimento aos expositores e expositoras, bem como a intervenção do público e à presença de vários professores da Universidade.

Reiterou o convite aos alunos e alunas inscritos a que estejam presentes na próxima aula, dia 08 de maio, e que todos e todas tenham o maior proveito desta oportunidade de refletir e debater a temática, mas, sobretudo, levá-la como bagagem importante em sua formação e ação em favor de melhores condições de habitabilidade do Planeta e de proteção dos direitos das pessoas afetadas pelas consequências da crise climática que se vive no momento.