Na sexta-feira (15/5), o Pavilhão Anísio Teixeira, na Universidade de Brasília (UnB), recebeu uma aula dedicada a um dos temas mais urgentes do nosso tempo: os deslocamentos forçados provocados pelas mudanças climáticas.
Convidadas pela disciplina Mudanças Climáticas e Mobilidade Humana, que tem como docente titular o professor Leonardo Cavalcanti, Irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), e Vanessa Paula Ponte, coordenadora do Projeto Nansen “Clima e Deslocamentos Humanos”, compartilharam com os estudantes a trajetória, a metodologia e os aprendizados do projeto que vem colocando as pessoas afetadas pela crise climática no centro da reflexão e das respostas.
A atividade destacou como a crise climática já reconfigura rotas, destinos e condições de vida, pressionando comunidades inteiras a deixarem seus territórios — muitas vezes sem garantias de proteção adequadas. A partir da experiência do Projeto Nansen 2024, as convidadas apresentaram uma abordagem que vai além da análise técnica: a metodologia do projeto parte da escuta qualificada e do reconhecimento do migrante e do refugiado como agente do diagnóstico e da construção de soluções, e não apenas como objeto de políticas públicas.
Nesse sentido, Vanessa enfatizou que o projeto nasce do compromisso de transformar conhecimento em ação e de construir respostas com participação direta de quem vive o problema.
“A metodologia do Projeto Nansen parte do princípio de que ninguém entende melhor os impactos do clima sobre a vida e a mobilidade do que as próprias pessoas afetadas. Quando elas entram no centro do debate, deixam de ser vistas apenas como destinatárias de ajuda e passam a ser reconhecidas como sujeitos de direitos e produtoras de caminhos possíveis”, afirmou.
Durante a conversa, Irmã Rosita ressaltou a importância de enxergar a organização social como um processo vivo e histórico, que nasce de caminhos coletivos e de oportunidades concretas de participação.
“A organização da sociedade civil não acontece assim a partir de alguém que tem uma iluminação… são caminhos, e os caminhos nascem onde a gente menos espera”, pontuou, ao relacionar a força das redes de solidariedade com a possibilidade de transformar realidades marcadas por vulnerabilidade e desproteção.
A aula também trouxe referências históricas que ajudam a iluminar desafios contemporâneos. Ao mencionar o passaporte Nansen, Irmã Rosita recordou que, diante de situações dramáticas e inéditas — como as crises humanitárias do pós-Primeira Guerra Mundial — a comunidade internacional precisou criar instrumentos novos para garantir proteção. A lembrança reforça o paralelo com o presente: a crise climática impõe um cenário em que respostas tradicionais já não bastam e em que o debate sobre mobilidade humana precisa avançar com urgência, criatividade institucional e compromisso com direitos.
A manhã contou ainda com a participação de Silvia Sander, Oficial de Proteção do ACNUR, que apresentou dados e explicou como a agência atua para apoiar pessoas refugiadas e deslocadas em contextos atravessados por eventos extremos e degradação ambiental, reforçando a dimensão de proteção internacional que se conecta diretamente à pauta climática.