Conclusão do Projeto Nansen e seu legado de debate permanente sobre clima e deslocamentos humanos

 

Desenvolvido pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH)/Fundação Scalabriniana com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) entre agosto de 2025 e julho de 2026, o projeto “Clima e Deslocamentos Humanos” uniu Ciência, saberes ancestrais e protagonismo de migrantes e refugiados em cinco regiões do país.

O Relatório Narrativo Final apresenta resultados que transcendem os números e apontam caminhos permanentes para políticas públicas e justiça socioambiental.

A interconexão entre a crise climática e o deslocamento humano forçado é uma das urgências humanitárias do nosso tempo. Dados do ACNUR revelam que, até meados de 2025, 117 milhões de pessoas haviam sido deslocadas por conflitos, violência e perseguição no mundo — sendo que três em cada quatro vivem em países altamente expostos a desastres climáticos. Somente na última década, eventos climáticos extremos provocaram cerca de 250 milhões de deslocamentos internos, o equivalente a quase 70 mil pessoas forçadas a deixar seus territórios todos os dias.

Foi diante desse cenário que o IMDH/Fundação Scalabriniana e o ACNUR uniram esforços para conceber e executar o projeto Clima e Deslocamentos Humanos. A iniciativa foi possível a partir do reconhecimento internacional concedido à Irmã Rosita Milesi, agraciada com o Prêmio Nansen de Refugiados 2024. O projeto estruturou ações formativas, científicas e de incidência política ao longo de 12 meses (agosto de 2025 a julho de 2026).

A Projeto foi apontar uma abordagem diversificada do problema, propondo que o enfrentamento das crises socioambientais seja construído de forma coletiva e intersetorial, colocando pessoas refugiadas, migrantes, povos indígenas e comunidades acolhedoras não como receptores passivos de políticas públicas, mas como protagonistas e agentes transformadores da realidade que os circundam.

Os números de uma trajetória transformadora

Estruturado em quatro eixos estratégicos — Formação, Comunicação e Narrativas, Saberes Compartilhados e Mobilização e Incidência —, o projeto alcançou diretamente 1.198 pessoas e expandiu sua atuação nas cinco regiões do Brasil, envolvendo mais de 30 instituições parceiras.

12 Oficinas “Caminhos da Justiça Climática e dos Deslocamentos Humanos”:

Realizadas nos Estados do Rio de Janeiro, Pará, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, as capacitações alcançaram diretamente 650 participantes.

Diversidade e Representatividade:

Os participantes das oficinas representaram 40 nacionalidades. Em seu perfil geral, aproximadamente 59% se autodeclararam mulheres, cerca de 42% pessoas pretas ou pardas, 34,41% refugiados, 25,95% migrantes e 39,64% brasileiros.

Atenção aos Povos Originários:

Duas oficinas exclusivas foram dedicadas ao povo indígena Warao, garantindo escuta qualificada, respeito ao idioma e valorização de seus saberes ancestrais sobre adaptação e manejo ambiental em contexto de deslocamento forçado.

Protagonismo Infantil:

A ação “Jardim das Infâncias Refugiadas e Migrantes”, desenvolvida em parceria com a Rede Infâncias Protagonistas, engajou mais de 300 crianças de nove nacionalidades em 10 localidades espalhadas por cinco biomas brasileiros. Com contação de histórias, atividades lúdicas e plantio de mudas nativas, as crianças vivenciaram de forma concreta a relação com o território e o pertencimento.

Inserção Acadêmica e Ciência:

O projeto implementou ementas curriculares conjuntas (“Clima e Deslocamentos Humanos”) em universidades de excelência, envolvendo dezenas de estudantes e pesquisadores na Universidade de Brasília (UnB) e na Universidade Federal de Roraima (UFRR).

Alcance Digital e Audiovisual:

Por meio dos canais oficiais no Instagram, Facebook, LinkedIn e YouTube, o projeto gerou mais de 79 mil visualizações, democratizando o letramento sobre justiça climática e direitos humanitários.

Um balanço de quatro eixos integrados

  1. Formação: As Trilhas do Semear

As oficinas pedagógicas tornaram-se exercícios vivos de cartografia e memória. Os participantes traçaram mapas afetivos e elaboraram os “Caminhos das Emoções”, convertendo dores das travessias em estratégias concretas de mitigação, resiliência e projetos comunitários. A jornada educacional demonstrou eficácia ao unir dados climáticos oficiais, práticas de arte-ativismo e saberes vivenciais.

  1. Comunicação e Narrativas: Estradas da Palavra

Além da forte mobilização nas mídias sociais, o projeto produziu materiais audiovisuais de destaque:

Uma animação dirigida por Ítalo Cajueiro, retratando a odisseia de migrantes e refugiados frente aos desafios ambientais, obra exibida em plenárias e debates civis internacionais, incluindo a COP30 em Belém.

Um vídeo institucional sobre a gênese e articulação da Rede Nacional, sob direção de Adriano Barcelos.

  1. Saberes Compartilhados: Trilhas do Saber

O legado teórico e científico da iniciativa foi consolidado através de três obras literárias e acadêmicas essenciais para o debate nacional:

* O Caderno de Debates nº 19 – Refúgio, Migrações e Cidadania, tradicional publicação promovida pelo IMDH e ACNUR com foco na temática central;

* O livro Crise climática e deslocamentos humanos: contribuições do Projeto Nansen 2024-2026 (em parceria com o Instituto Perifa Sustentável), reunindo profundas reflexões teóricas;

* O Guia Prático para Transformações Sociais, instrumento metodológico autoral concebido para ser escalável e replicado livremente por escolas, comunidades, universidades e formuladores de políticas públicas em todo o país.

  1. Mobilização e Incidência: Caminhos Coletivos

O projeto conquistou expressiva capilaridade ao marcar presença institucional nas negociações da COP30 (novembro de 2025, em Belém), na qual a Irmã Rosita Milesi e o ACNUR defenderam a interconexão indissociável entre justiça climática e mobilidade humana.

Além disso, a iniciativa estruturou permanentemente a Rede Nacional “Crise climática e deslocamentos humanos”, contando com representatividade territorial nas cinco regiões, e estabeleceu um Comitê Gestor intersetorial, composto por representantes da sociedade civil, ministérios públicos, meio acadêmico, organismos da ONU e lideranças migrantes.

A honraria internacional do Prêmio Nansen, atribuída em 2024 a Rosita Milesi, proporcionou um projeto com aspirações de perenidade. O projeto se encerra como ciclo financiado, mas inaugura um movimento de esperança ativa que continuará germinando em salas de aula, comunidades de acolhida, pesquisas acadêmicas e incidência institucional.

“A maior conquista deste projeto foi provar, na prática de cada oficina e encontro, que o enfrentamento aos desafios da crise climática não se faz sem a voz e a sabedoria de quem vivencia o deslocamento na própria pele. Quando dissemos em Genebra que ‘o caminho se faz caminhando’, assumimos o compromisso de não esperarmos por respostas prontas. Em conjunto com o vasto campo de participantes e instituições parceiras, respostas foram construídas, nas margens, nas periferias, em cada gesto de acolhimento, escuta ativa e contribuição de saberes e vivências da coletividade e da riqueza individual partilhada pelos atores participantes”, afirmou Rosita.

Acesse e explore:

O relatório completo, o Guia Prático para Transformações Sociais, a série audiovisual e as publicações do Projeto Nansen estarão disponíveis para consulta no hotsite oficial da campanha e na biblioteca digital do IMDH.