Diretora do IMDH recebeu o grau de Ufficiale em cerimônia conduzida pelo embaixador da Itália, Alessandro Cortese, em Brasília
A diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), irmã Rosita Milesi, recebeu na noite de quarta-feira (30) a condecoração de Ufficiale dell’Ordine al Merito della Repubblica Italiana (Oficial da Ordem do Mérito da República Italiana). O embaixador da Itália, Alessandro Cortese, entregou a comenda e o diploma em cerimônia realizada em Brasília, a convite dele e da embaixatriz, Elsie Cortese.
Participaram do ato, entre outros, o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Ricardo Hoepers, representante da Agencia da ONU para Refugiados, Davide Torzilli, o chefe da missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) no Brasil, Paolo Caputo, e Fabrizio Pellicelli, da AVSI Brasil.

A Ordem do Mérito da República Italiana foi criada pela Lei nº 178, de 3 de março de 1951, e é a primeira entre as ordens nacionais do país. Seu objetivo é reconhecer serviços prestados à nação nas ciências, nas letras, nas artes e na economia, no exercício de cargos públicos e em atividades de fins sociais, filantrópicos e humanitários, além de longos serviços nas carreiras civis e militares.
O presidente da República é o chefe da Ordem, e a distinção pode ser concedida a cidadãos italianos e estrangeiros. São cinco graus: Cavaliere di Gran Croce, Grande Ufficiale, Commendatore, Ufficiale e Cavaliere. O de Ufficiale, concedido à irmã Rosita, é o quarto dessa sequência.
Em sua fala na cerimônia, Irmã Rosita destacou o vínculo histórico entre os dois países.
“As relações Brasil-Itália e Itália-Brasil são históricas, e são relações que nos dão muito orgulho, muita satisfação”, disse.

Como integrante da Congregação das Irmãs Scalabrinianas, lembrou que a instituição foi fundada na Itália pelo bispo João Batista Scalabrini e “nasceu exatamente na época em que as grandes migrações italianas vinham ao Brasil”. Segundo ela, o ensinamento recebido na origem da congregação deixa como herança a missão de “continuar apoiando outras pessoas, de outras nacionalidades”.
A religiosa recorreu também à história da própria família. Seus bisavós vieram da Itália.
“Toda vez que eu vejo um migrante, uma pessoa que chega e que não tem documentos e que não tem uma base clara de conseguir um status legal, eu lembro do meu bisavô”, afirmou. Pelo que a família conseguiu apurar, ele deixou a Itália aos 16 anos, ainda menor de idade, e “nunca fez passaporte, não consta em nenhum registro histórico, exceto o de ter sido sepultado no Brasil”. A história se repete. Ontem e hoje, pessoas sofrem por não terem documentos. E nossa missão é buscar todas as formas de acolher, apoiar, documentar e integrar estas pessoas. Dignidade não tem nacionalidade, não tem passaporte. Está presente em todo o ser humano e respeitá-la é missão fundamental, sem qualquer limitação de lugar de nascimento ou de fronteiras.

A falta de documentos afetou a descendente: “Eu tive muita dificuldade de adquirir a cidadania italiana, justamente porque não conseguíamos a certidão de nascimento do bisavô”. Segundo ela, uma pessoa que apareceu por acaso, e que diz nunca ter conhecido, se encarregou de consultar os livros de registro na Itália, até localizar aquele sobre o qual nada se sabia, e que, ao final, resultou como um “desaparecido”. Hoje, ela tem cidadania brasileira e italiana.

No discurso oficial, entregue em italiano aos representantes da embaixada, irmã Rosita agradeceu ao presidente da República Italiana e ao embaixador e associou a honraria à missão da congregação, criada no fim do século XIX para amparar italianos que atravessavam o oceano rumo às Américas.
“Naquele tempo, o migrante era o italiano. Hoje, a mesma missão nos pede que acolhamos quem chega de outras origens e por outras fronteiras. É a mesma causa, com outros rostos”, diz o texto.
O documento resume a trajetória da diretora do IMDH. Formada em Direito pela PUC do Rio Grande do Sul, ela relata que, diante das dúvidas sobre a utilidade do Direito em sua missão congregacional de então, respondia que queria ser “advogada dos pobres”. Concluiu o mestrado em Migração e Refúgio, em Madri, e, no fim da década de 1980, foi encarregada de implementar a criação em Brasília um centro de estudos migratórios. Nos anos 1990, com a chegada dos refugiados angolanos, atuou para que o Brasil tivesse uma lei de refúgio, aprovada em 1997. O IMDH foi fundado em 1999; em 2004, nasceu a RedeMiR, que reúne dezenas de organizações de todas as regiões do país. Em 2018, em razão da crise na Venezuela, foi aberto o IMDH Solidário, em Boa Vista (RR), para acolher sobretudo mulheres e crianças.

Em sua fala, o embaixador leu a carta de motivação para o prêmio concedido, cujo diploma inclui firmas do presidente italiano, Sérgio Mattarella, e da primeira-ministra, Giorgia Meloni.
Ele mencionou o Prêmio Nansen para Refugiados, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que irmã Rosita recebeu em 2024, em Genebra. Definiu-o como “um prêmio muito importante”, concedido a pessoas muito especiais. Ela é a primeira mulher brasileira a receber a distinção.
“O trabalho de Irmã Rosita Milesi rendeu frutos no Brasil, especialmente na construção da legislação referente ao refúgio no Brasil, da qual teve participação direta”, relembrou Cortese.
Condecoração anterior
Esta não é a primeira condecoração italiana recebida pela religiosa. Em 2006, a Embaixada da Itália já a havia condecorado com a Stella della Solidarietà Italiana.
Ao final do discurso, a diretora do IMDH atribuiu o reconhecimento também a quem tem apoiado ao longo dos anos e a quem trabalha com ela hoje em seus vários espaços de missão.
“Nada disso é obra de uma pessoa só. Pertence às Irmãs Scalabrinianas, à equipe do IMDH, aos voluntários, aos parceiros e, sobretudo, aos migrantes e refugiados, que nos ensinaram que a dignidade não tem nacionalidade”.
E concluiu:
“Receber esta honra da terra de meus antepassados é receber um abraço de família”.