O Papa Leão XIV iniciou seu pontificado com uma declaração de forte impacto social e eclesial. No último dia 4 de outubro de 2025, foi publicada a Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), dando continuidade a um projeto iniciado por seu predecessor, o Papa Francisco. O documento centraliza-se na profunda ligação entre o amor de Cristo e o chamamento dos cristãos para se tornarem próximos dos pobres e marginalizados, um apelo que ressoa particularmente forte junto aos migrantes e refugiados.
O texto, cujo título faz referência à promessa de Deus à comunidade cristã com “pouca força” (Ap 3, 9), resgata a prioridade evangélica de reconhecer e acolher o Senhor “nos pobres e atribulados” (n. 3). O Papa Leão XIV assume a herança do Papa Francisco e insiste na urgência da Igreja ser um “lugar onde os pobres têm um espaço privilegiado” (n. 21).
Crítica à cultura do descarte e às injustiças estruturais
A Dilexi Te faz um apelo vigoroso a uma mudança de mentalidade, criticando as estruturas sociais e econômicas que privilegiam a acumulação de riquezas e fomentam a desigualdade. O Pontífice denuncia o aumento paradoxal de elites ricas em um mundo onde a pobreza se manifesta em múltiplas formas.
“A pobreza já não se apresenta como uma condição única e homogénea, mas manifesta-se em múltiplas formas de empobrecimento econômico e social, refletindo o fenômeno de crescentes desigualdades, mesmo em contextos geralmente prósperos,” afirma o Papa (n. 9).
O documento sublinha que a pobreza não é fruto do acaso ou falta de “mérito”, combatendo a “falsa visão da meritocracia” que culpa as vítimas da exclusão (n. 14). O Santo Padre também manifesta grande preocupação com os “inúmeros rostos dos pobres”, incluindo as mulheres “duplamente pobres”, que padecem de exclusão, maus-tratos e violência (n. 12).
Migrantes e refugiados, o rosto do ‘clamor dos pobres’
Para o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), a mensagem do Papa Leão XIV é um alento e estímulo à sua missão de acolhimento e defesa da dignidade dos refugiados e migrantes, que representam a manifestação mais clara das novas formas de pobreza e da cultura do descarte.
Ir. Rosita Milesi, diretora do IMDH, destacou a conexão do texto com a causa das migrações. “A Exortação Apostólica Dilexi Te é um farol que ilumina a urgência da nossa missão. Quando o Papa fala do ‘clamor dos pobres’ que interpela a Igreja, ele está se referindo, de modo eloquente, ao clamor de milhões de refugiados, migrantes e deslocados que buscam acolhida, segurança e dignidade,” declarou Ir. Rosita.
“O Santo Padre critica duramente a ‘cultura que descarta os outros sem sequer se aperceber’ – uma dura realidade para aqueles que são obrigados a deixar sua terra e são marginalizados na chegada. Para o IMDH, isso significa colocar o migrante, o refugiado e todos aqueles em situação de deslocamento forçado no centro da nossa ação. Eles são o rosto vivo de Cristo que ‘tem pouca força’ e que nos interpela a lutar contra as causas estruturais que geram a injustiça, o conflito e, consequentemente, a migração forçada. A Igreja, mais uma vez, se coloca ao lado dos ‘duplamente pobres’, clamando por um mundo mais justo e inclusivo, que garanta a todos, sem exceção, o direito à vida, à acolhida e à paz,” concluiu a diretora do IMDH.
