Por Adelia Zummo*
Boa Vista (Roraima)
Há mais de um ano eu lia o projeto de Serviço Civil Universal “Capacetes Brancos para a inclusão de migrantes e refugiados”. Hoje, olhando para trás, sinto que fiz a escolha certa. Olá, eu sou a Adelia e estou realizando meu Serviço Civil em Boa Vista (Roraima), no escritório do IMDH. A posição geográfica de Boa Vista já diz muito: sendo a principal cidade de fronteira, é aqui que muitas pessoas que chegam começam o seu caminho de recomeço.
O IMDH, instituição criada para facilitar a etapa inicial de documentação necessária para a solicitação do documento de identidade brasileiro, vai muito além desse primeiro apoio. Promove, de fato, a inclusão de migrantes e refugiados, atuando principalmente na defesa dos seus direitos, na assistência jurídica e humanitária e, por fim, na sua inclusão no mercado de trabalho e na sociedade.
A minha experiência, já consolidada, me deu a oportunidade de observar de perto o fluxo migratório, percebendo seus diversos aspectos. Cada dia é uma oportunidade de descoberta: mesmo que o trabalho nem sempre permita longos diálogos, ainda assim é possível entrar em contato com as pessoas, trocar experiências e compreender suas necessidades, dificuldades e esperanças. Durante esse percurso, também tive a oportunidade de passar uma semana em Pacaraima, em uma casa de acolhimento. Lá, em contato direto com a fronteira, pude perceber de forma concreta o fluxo contínuo de pessoas que a atravessam.
Foi uma experiência intensa, que deu ainda mais significado ao que vejo diariamente no escritório. Viver no norte do Brasil, em Roraima, também tem sido um grande enriquecimento cultural. Esse território é muito rico em tradições, especialmente indígenas, e me permitiu me aproximar de diferentes culturas e conhecer suas histórias. Ao mesmo tempo, o contato com os migrantes tem sido fundamental não só para compreender melhor as suas trajetórias, mas também para me compreender.
Apesar dos limites que podem existir no trabalho cotidiano, acredito que o apoio em acolhimento, regularização migratória e mediação institucional que oferecemos como instituição, tem um impacto realmente significativo. Ter acesso a um documento de identidade não significa apenas “fazer parte” do país que acolhe, mas representa também o primeiro passo concreto para construir uma nova vida: buscar trabalho, acessar serviços e começar a se sentir parte da comunidade.
Levo comigo a certeza de que cada pequena ação pode fazer uma grande diferença na vida de alguém, porque, no fim, acolher o outro também é uma forma de construir um mundo mais justo e humano.
* Voluntária, no Programa Servizio Civile Universale, do Governo da Itália, viabilizado através da Fundação Scalabriniana para atuar no Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), em Roraima (Brasil), dedicado à acolhida, proteção e integração de refugiados e migrantes, com foco central na atenção a mulheres e crianças.