Por Giacomo Ulivi*
Brasília – DF – Brasil
Pensava que a minha vida estaria completa e imensa depois de terminar meu ciclo de estudos com o mestrado em Direito lá na Itália, mas essa consideração estava bem longe da verdade. A primeira vez que morei em outro país foi, sim, por bastante tempo, mas era “apenas” um intercâmbio, ainda dentro da Europa. O contexto era o mesmo ao qual eu já estava acostumado: uma vida de estudante descobrindo países vizinhos, pequenos e com culturas relativamente afins.
Muitas vezes peguei pesado com a Itália pelo fato de não haver tantas oportunidades de crescimento ou desenvolvimento pessoal próprias do país. Por isso, quando soube desse programa (o “Serviço Civil Universal”) que estou vivenciando agora, fiquei bem surpreso, porque, de fato, nem todo mundo o conhece. Foi assim que decidi me candidatar junto com alguns amigos da minha cidade, cada um para um destino diferente e, por fim, partir. Todos acabamos sendo escolhidos nesse voluntariado internacional. O Brasil me chamou a atenção imediatamente, pois tinha ouvido falar muito a respeito e já falava português (ou, pelo menos, a minha gramática estava em dia, enquanto as outras habilidades deixavam a desejar).
Para ser honesto, não foi só o Brasil em si que me cativou, mas um conjunto de elementos. Por exemplo: o fato de o projeto ocorrer em Brasília, uma cidade que eu só conhecia pela arquitetura e que é famosa pelo fato de muitas pessoas errarem na hora de dizer qual é a atual capital do país. Brincadeiras à parte, o fator decisivo foi me informar sobre a instituição onde prestaria meu serviço: o IMDH – Instituto Migrações e Direitos Humanos. Já na época percebi que não era apenas uma ONG qualquer: o Instituto faz parte do tecido sociocultural e econômico da cidade e é um ponto de referência extremamente importante, capaz de impactar a vida de milhares de pessoas. Recordo-me como se fosse ontem da minha chegada a Brasília, junto com meu amigo e colega Andrea. Irmã Rosita Milesi, diretora do IMDH e nossa supervisora, já estava lá à nossa espera no aeroporto para nos acolher e levar ao Varjão, bairro que abriga a sede do Instituto e também a nossa futura casa. Inútil dizer o quanto essa experiência foi preciosa.
No IMDH, tive o privilégio de atuar em diversas frentes, o que me permitiu compreender o fenômeno migratório sob uma perspectiva de 360 graus. No setor de documentação, entendi que a burocracia, muitas vezes vista como um fardo, é na verdade a chave para a dignidade, porque sem documentos, o migrante é invisível. Já no setor de atendimento, o trabalho era ainda mais humano e direto, lidando com as angústias e esperanças de quem às vezes chega sem nada. Como voluntário, transitei entre essas áreas, realizando desde tarefas administrativas e jurídicas até a entrega de ajuda material. Graças à vasta rede de parceiros do Instituto, vi projetos ganharem vida e transformarem realidades imediatas.
Um dos exemplos mais marcantes dessa rede de cooperação foi o projeto “Empoderando Refugiadas”. Por meio de uma parceria estratégica do IMDH, mulheres refugiadas participavam de cursos profissionalizantes, ganhando ferramentas para reconstruir suas vidas no Brasil. Recordo-me vividamente de quando fui convidado para o dia do encerramento e da entrega dos diplomas. Lá, conheci uma mulher venezuelana e seu marido, ambos beneficiários do Instituto. Ao receber o certificado, eles não contiveram as lágrimas; graças a projetos de microcrédito apoiados pelo IMDH, o casal havia conseguido abrir o próprio negócio. Ver aquela emoção de perto me fez entender que o nosso trabalho ia muito além da documentação física: tratava-se de devolver às pessoas o direito de sonhar e de serem donas do próprio destino. Foi um aprendizado constante sobre resiliência.
Mas o Brasil também me presenteou fora do escritório. Descobri um país cuja riqueza cultural e beleza natural fazem a imagem que eu tinha do Brasil parecer pálida e superficial: a beleza desse país que se conhece no exterior não chega nem perto do que o Brasil realmente é. Viajei do Norte ao Sul, encontrando novos lugares favoritos. Até Brasília, com seu céu infinito e seu traçado único, também se gravou em mim, bem como as amizades que me trouxe e que quero levar para o futuro.
Infelizmente, o momento da partida se aproxima. Sinto um aperto no peito ao pensar que não sei quando – ou se – terei a oportunidade de rever este país, esta cidade e essas pessoas tão queridas. O que levo comigo é o aprendizado e a certeza de que me candidatar para esta experiência, tão marcante e inesquecível, foi a escolha certa.
* Voluntário, no Programa Servizio Civile Universale, do Governo da Itália, viabilizado através da Fundação Scalabriniana para atuar no Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), em Brasília, dedicado à acolhida, proteção e integração de refugiados e migrantes.