Migrantes e Refugiadas mulheres e crianças: Uma vivência que me enriqueceu

Por Chantal Kamel*
Boa Vista (Roraima)

Participei, como voluntária, de um trabalho humanitário no âmbito das migrações, voltado ao apoio de pessoas em situação de vulnerabilidade, em particular mulheres e crianças. Tive a oportunidade de vivenciar essa experiência graças a um acordo internacional entre o Brasil e a Itália, que possibilitou o desenvolvimento de um projeto no Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), em ambas as suas presenças, Brasília (DF) e Boa Vista. Fui selecionada para atuar nesta última cidade, capital do estado de Roraima, localizada na fronteira com a Venezuela. Nesse contexto, a experiência ocorreu em um cenário marcado pelo intenso fluxo migratório originário tanto da Venezuela, quanto de países do Caribe, exigindo respostas ágeis e articuladas para o acolhimento e a assistência às populações deslocadas.

Ao longo do projeto, as atividades principais incluíram o acolhimento de migrantes e refugiados, tanto os recém-chegados quanto aqueles já presentes no território brasileiro, a orientação sobre seus direitos e o acompanhamento de processos de regularização migratória, seja para solicitação de residência ou de refúgio. Não apenas nos ocupamos da pré-documentação, como também realizamos a entrega dos documentos já prontos, em parceria com a Polícia Federal, garantindo que cada pessoa receba orientação adequada em todas as etapas do processo.

Entre as iniciativas desenvolvidas, destaca-se o projeto Angel Gabriel, voltado à distribuição de kits para crianças, com o objetivo de contribuir para a redução da desnutrição e da mortalidade infantil entre populações migrantes em situação de maior vulnerabilidade. Felizmente, houve a ampliação de ações por meio da implementação de novos projetos ao longo do último ano, permitindo alcançar um número maior de pessoas. A distribuição de cestas básicas e kits escolares, aliada à entrega de kits de higiene, tem ampliado o alcance das ações e garantido um suporte imediato às necessidades básicas das pessoas atendidas. Paralelamente, o apoio na elaboração de currículos tem se mostrado essencial para promover a autonomia dos beneficiários, oferecendo orientação na organização de suas experiências, habilidades e qualificações de acordo com as exigências do mercado de trabalho brasileiro. Dessa forma, as iniciativas não apenas atendem demandas emergenciais, mas também contribuem para a inserção profissional e a integração dessas pessoas na comunidade brasileira.

Ao longo desse processo, também enfrentei diversos desafios, como lidar com situações de extrema vulnerabilidade, incluindo famílias desabrigadas e crianças em risco, além da diversidade de necessidades individuais e da limitação de recursos diante do elevado fluxo migratório. Essas circunstâncias exigiram criatividade, capacidade de adaptação e colaboração constante com a equipe local e instituições parceiras, bem como atenção contínua, sensibilidade e agilidade na tomada de decisões.

Em suma, a participação nesse projeto humanitário constituiu uma experiência extremamente enriquecedora, tanto pelo impacto direto na vida das pessoas atendidas quanto pelo aprendizado pessoal e profissional adquirido. O trabalho com migrantes, especialmente mulheres e crianças, fortaleceu meu compromisso com a promoção da dignidade, da inclusão e da proteção dos direitos humanos. Além disso, essa vivencia ampliou minha compreensão sobre a complexidade do campo humanitário e sobre a importância de estratégias flexíveis e da atuação em rede. Por fim, espero que iniciativas como esta inspirem outros profissionais e voluntários a se engajarem em ações humanitárias, incentivando o compromisso social e a atuação colaborativa na construção de caminhos mais humanos, solidários e transformadores.

* Voluntária, no Programa Servizio Civile Universale, do Governo da Itália, viabilizado através da Fundação Scalabriniana para atuar no Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), em Roraima (Brasil), dedicado à acolhida, proteção e integração de refugiados e migrantes, com foco central na atenção a mulheres e crianças.